Aparelho
repressivo e Estado
Foi-se a Ditadura, mas ficou o
Estado, dono do aparelho repressivo, seu privilégio (e de quem pode pagar). O exercício da violência e da repressão é um monopólio, em geral, do Estado, democrático ou não. Dizer que o aparelho autoritário da
ditadura foi-se embora e que a redemocratização trouxe um Estado de tipo novo é
esconder contradições.
Essas afirmações procuram justificar uma tese: de que a situação ficou tão no fundo do poço, que não existem mais soluções, a não ser abrir mão de certos direitos ou, utilizando o termo da época, flexibilizar certos direitos. É um bom $negócio$ radicalizar.
Essas afirmações procuram justificar uma tese: de que a situação ficou tão no fundo do poço, que não existem mais soluções, a não ser abrir mão de certos direitos ou, utilizando o termo da época, flexibilizar certos direitos. É um bom $negócio$ radicalizar.
Impossível negar que o aparelho estatal e seu privilégio da
violência continuam a serviço dos mesmos lacaios de outrora. O autoritarismo e
o paternalismo ainda contaminam o Estado. A corrupção tornou-se sistêmica e a
existência de corruptos e corruptores se reproduz ao estilo coelho.
O mito da
segurança
A segurança é tema do tempo presente: nela, um direito legítimo do
cidadão é posto a serviço dos interesses privados e das grandes corporações:
enquanto inúmeros países, com o incremento do seu desenvolvimento, produziram
relações mais orgânicas entre comunidade e serviço de segurança
pública, inclusive com o banimento de uso de armas letais em ações de rotina,
aqui no Brasil, clama-se por Hollywood!
Sangue e castigo. Depois que
racionalmente se demonstrou que mandar alguém pra cadeia
complica exponencialmente a condição de vida do/da meliante, a moda
agora, no mundo do fast-think, é
#darpaulada, #matar e resolver as coisas assim. Sumiram as reflexões e ponderações éticas. Produtividade ao máximo.
Esta radicalização pode ser indício
de que estamos a acreditar na não-solução. Mas, provoca-se: houve,
algum dia, da aurora da humanidade aos dias logo ali na esquina, alguma solução para a questão da segurança?
Compartilho da idéia de que não.
Viver sempre foi repleto de riscos. E as posses sempre foram visadas por
bandidos do deserto, gangues urbanas, trupes medievais, bandos pré-históricos.
Risco e Segurança (bom ler Anthony Giddens, sobre esse tema). É como se
em algum tempo da memória de alguém, tivesse existido um momento na história da
humanidade em que os riscos eram diminutos e as pessoas eram solidárias e simpáticas
e carregadas de comunidade em sua alma. E no nosso tempo presente, este é um
mito contemporâneo.
Mas, também, é indício da mercantilização dos direitos - segurança de qualidade para quem tem grana e posses, R$1,99 para os demais. E é indício do poder e das relações de quem fatura com a indústria da segurança.
Mas, também, é indício da mercantilização dos direitos - segurança de qualidade para quem tem grana e posses, R$1,99 para os demais. E é indício do poder e das relações de quem fatura com a indústria da segurança.
Direitos por
segurança: troca bilionária
Mas esta análise, que foi pensada no momento em que a polícia
realiza ocupação do campus da USP - Universidade de São Paulo, não quer cair no
niilismo radical. Mesmo acreditando na
impossibilidade da ausência dos riscos, as causas do aumento do risco devem ser
investigadas pelo conjunto de agentes interessados para que se apontem
alternativas. A questão, então, é de alternatividades. E mais: quais são as
melhores alternativas não-violentas para tratar da questão da segurança?
E bom lembrar-se do Rio de Janeiro e
de partes da Colômbia: a militarização da sociedade traz consigo novos
bandidos, tão bem armados quanto os atuais e melhor acobertados pelo Estado. É bom lembrar-se
dos casos de execução sumária de pobres, da ação violenta das polícias nos
campos, da sua corrupção e da repressão a manifestações de pensamento. É bom,
também, identificar o lobby das empresas de armas junto aos políticos, o
tráfico internacional de armas, com o consentimento de grandes países e
empresas.
Vende-se hoje o discurso da
segurança porque ela é uma indústria bilionária. Vende-se hoje o discurso da
segurança porque ela á uma indústria sanguinária, que alimenta outros bilhões
em outra indústria, a da mídia e entretenimento. Vende-se hoje o discurso da
segurança porque ela alimenta boas fotos para campanhas políticas. SE é fato que a nossa situação de segurança está se deteriorando, ela só aparece dentro da lógica que movimente seus bilhões. Caso não mobilizasse grana e audiência, eu, tu, ele e nós, vizinhos, estaríamos decididamente mau servidos.
Democracia não deve ser um
privilégio concedido aos pobres e pessoas comuns da sociedade, por parte dos
ricos, quando melhor lhe convém aos seus lucros e interesses. Por exemplo, para exercitar o contraditório, que faz parte da ética jornalística, a atual cobertura dos meios de comunicação não tem se ouvido o outro lado, nesse caso, os estudantes que ocuparam o prédio, que tem a liberdade de se autointitular da maneira que melhor representa sua participação no mundo (não são apenas as empresas que podem se apropriar do simbólico para vender suas marcas). Apenas a versão da reitoria e da polícia e quando estudantes, mostram apenas os favoráveis a ação da polícia, em franca manipulação. E porque se
manipula? Porque jornalismo virou negócio.
Por fim...
No caso da USP, uma manifestação
legítima de pensamento expressada pelos estudantes, de que não é papel da
polícia militar rondas no território universitário, tem-se transformado num
espetáculo midiático levado a cabo por setores conservadores da sociedade que
se aproveitam de sua situação privilegiada na política, na economia, na mídia e
em outros espaços para destilar VELHAS ORTODOXIAS. Além da desconstrução do
movimento, taxado de vagabundos, ocorre um contra-ataque desses setores do
atraso depois da realização das marchas da maconha pelo Brasil, nos últimos
anos. A questão não é ser a favor ou contra uso da maconha, mas como a sociedade vai dialogar com a diferença de modos de viver e experimentar o mundo. Ela não se reduz a isso. Não se engane: não é a maconha, estúpido!
Em torno desse relicário de velhas
ortodoxias, reforça-se o discurso feito todo dia, como “pai-nosso e ave-maria”:
mais polícia, mais polícia, mais polícia. Nem quando 50X50 da população for parte
do corpo policial e a polícia dispor de arsenal nuclear, a questão estará resolvida. Isto é, o incremento da
violência estatal, através das suas polícias, tem servido para preparar o
caminho do futuro da humanidade.
E qual seria este futuro? Definitivamente,
não é o futuro dos 99% da sociedade. É o futuro arduamente trabalhado e que vem
sendo planejada para os benefícios do 1%. E qual seria o modelo do futuro
idealizado pelo 1% da sociedade global? É a China. Maxiprodutividade do capital e autoritarismo estatal elevado. Para
isso, fica como sugestão o poema de Eduardo
Alves da Costa: No Caminho, com Maiakóvski.
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