
Viegas Fernandes da Costa
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Foto: Futurapress / Último Segundo
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Desde quando plantaram aquele barco na praça, para ali
apodrecer ante os olhos de toda gente, percebeu-se que o surreal tomara conta
do dia-a-dia dos viventes da cidade e das páginas do jornal. O Vale deu lugar
às valas, cerceara-se aos artistas o direito à livre palavra e houve até aquele
poeta andarilho, cuja figura incrustara-se à paisagem urbana e os versos
manchavam-se no suor de suas axilas, a exilar-se no sonho vendido em terras
cariocas. “Triste de um povo que vê migrar para distante seus poetas”, cá
pensei chutando pedregulhos. Abandonara-nos a poesia e restara-nos o tecer
diário de uma mortalha costurada nos consultórios psiquiátricos. Enganara-me,
entretanto. “A coisa não é assim tão definitiva” - percebi-o outro dia nas
páginas mesmas do jornal diário: o poema parido do absurdo. “De costas para o
Itajaí-Açu” – dizia a chamada na capa – , e a foto de um banco
voltado para a estrada.
A possibilidade da poesia a que me
refiro não está, entretanto, na inconcebível postura do poder público que há
muito nos tenta convencer de uma identidade fabril e febril. Os bancos voltados
para a estrada, cujo movimento e velocidade intensos nos martelam a urgência do
mundo contemporâneo e seus negócios, e nos imputam culpa por estarmos ali,
sentados, quando deveríamos estar esfalfando o melhor dos nossos anos
produzindo para consumir, dizem desta cidade doente que um dia acreditávamos
jardim. Assim, olhar para o rio configura-se antiproducente. Que discurso
anuncia o rio? Este rio que é sempre mutante, este rio que nos diz do
deslocamento, este rio que, líquido, não é concreto. Não por acaso, há quem
defenda enjaular o rio, serpente sibilante que é.
A possibilidade da poesia a que me
refiro está na capacidade de se ver e anunciar o absurdo. Não é pouca coisa
reconhecer aos viventes o direito de contemplar o rio, o direito de sentar e
compreender que a urgência do mundo contemporâneo e seus negócios não é maior
que a urgência da própria vida. A poesia se anuncia no momento em que os
significados da posição de um banco em via pública passam a ser tema de debate
e ocupam as capas dos jornais. E um povo capaz de ouvir a poesia – e de olhar
para o seu rio – é um povo que ainda respira, apesar de tudo!
* Íntegra do texto publicado no Jornal de Santa
Catarina, 16/11/2011 por Viegas Fernandes da Costa
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