Oi,
Desculpe se lhe desrespeitei de alguma maneira, em algum momento. Política é isso mesmo, defender posição. Só que é muito contraditória a posição do brasileiro sobre o que ele entende por Política.
Eu penso que o objeto maior da Política é o bem comum. É preocupar-se consigo e ao fazer isso, preocupar-se com todo o projeto de humanidade, como diria Sartre. Política, aqui na base da sociedade, aonde nós existimos, ela deve ter compromisso com a Utopia e a Esperança. E na Política, tudo é possível, desde que se rompa com a ilusão do fato consumado, de que o cenário que vivemos hoje é o único possível, e que alternativas são demasiado “trabalhosas” para se concretizar, para não dizer impossível. Ernst Bloch, que começo a ler, dá um sentido positivo a Utopia, considerando-a uma visão de possibilidades que não são captadas por uma realidade aparente, mas que existem ou podem vir a existir, que estão ai, rindo de nosso destempero e falta de atenção.
(No calor do debate, já tentaram desqualificar meu debate como partidário. Este tipo de Política que comungo não depende de partidos, depende de sujeitos. Eu sou um sujeito. E eu compreendo a realidade participando dela).
Portanto, não dá, em Política Maiúscula, para ficar só na gestão. O nosso planeta é palco de inúmeros problemas, todos eles de natureza Política e não técnico. Própria crise ecológica é um problema político, já que temos inúmeras tecnologias para reduzir drasticamente o envio de poluentes para a atmosfera, ou fazer saneamento básico etc. O que rola é um fenômeno em que parte considerável da sociedade tem fugido da Política e se refugiado na técnica.
Daí, quando as pessoas se refugiam na técnica e ordem, as coisas complicam, perde-se o sonho, o elemento Utopia. Ficamos aparentemente sem possibilidades. Elas existem, mas a via do meio, a classe média, se refugia no “mais vale um pássaro na não do que dois voando”. Aqui no Vale do Itajaí, sem histórico de debate público democrático, o sonho do cidadão comum é ver tudo em ordem, arrumadinho, debatendo sentadinho, tomando vinho e licor. Só que a realidade é tensa, desigual e hierárquica. É mais a praia de Copacabaca em dia de Sol, em alto janeiro, do que uma dessas super praças européias, onde tem um circuito organizadinho, seguindo um traçado de um museu para uma loja, de uma loja para um café, de um café para o cinema.
O caso é que em todos os países, a maneira como a Política acontece é diferente. Mas é sempre comum ter alguns tipos de políticos: uns que se preocupam mais com coletivo e outros que preferem o bem privado, a entrega do país a grupos de empresas estrangeiras. Isso não é conspiração, basta ver o que acontece na Europa neste momento, ou que aconteceu em toda a América Latina, especialmente na Argentina, para ficarmos num exemplo bem próximo ao nosso. São posições, Política tem haver com isso, Democracia tem haver com gente ativa, pensando em si e nos outros. Participação aprimora a qualidade da democracia.
É simplificar bastante, mas creio que basicamente existem três grandes posicionamentos de políticos aqui no Brasil, neste momento: ser defensor do bem e da esfera pública, ser defensor da condição de subalterno ou ficar em cima do muro. Esta é uma eleição muito simples: dois projetos distintos, com algumas semelhanças, mas não iguais. Uma representada pela candidatura Dilma, está construindo uma social-democracia à brasileira, aos trancos e barrancos. A outra, com Serra, acredita que somente São Paulo é o Brasil, e o que for decidido pelos escritórios das empresas multinacionais na Paulista, tá valendo. Tenho amigos que dizem assim: o projeto da Dilma é garantir 60% do país para os brasileiros, os outros 40% negociamos com o mundo. E o projeto do Serra é negociar com o mundo 80%, deixar 10% para a elite paulista e o resto, dividir pelo Brasil.
E a política do "em cima do muro" é a preferencial do brasileiro. É como se a divergência fosse vista somente como um mal. Penso assim: divergir é por a história em marcha. É dizer que não existe fim da história, que nós humanos somos criativos para criar quantas possibilidades forem possíveis, em qualquer que seja a situação.
Uma parte do povo do 'em cima do muro' acredita que a Política pode ser resolvida com um bom gerente. Esse é um mito que já caiu em parte do mundo e aos poucos vai sucumbindo por aqui também. Eu creio em Políticas Públicas bem planejadas e executadas, mas ignorar que todos os problemas são, também, problemas políticos é tapar o sol com a peneira.
Outra parte do 'em cima do muro' e que pertence à classe média, prefere SÓ falar em reduzir impostos ao invés de democracia. Se ela acredita nisso, tudo bem. Já eu não creio nisso. Ainda existem milhares de pessoas a incluir no consumo e na cidadania neste país. Ficar em cima do muro a respeito disso não é inteligente. A França, país tão bem respeitado pela classe média tupiniquim, está lá, na rua defendendo seus direitos. E sabe por quê? É porque para aquele tipo de político que prefere o privado, as crises são pagas sempre por somente um lado da sociedade: o mais fraco.
Se a classe média brasileira achou o fenômeno político "Obama" super interessante e cheio de estratégias contemporâneas, me deixem escrever emails e tudo o que mais eu possa exprimir minhas idéias legítimas sobre o mundo em que eu vivo e rebater a boataria deste momento específico da campanha.
Acredito firmemente que divergir não é guerrear, nem partir para a baixaria. É realizar plenamente as possibilidades da democracia. E a Política significa disputa por quem vai ter voz no processo, nem é muito sobre ser hegemônico. Quanto mais vozes desenhando o projeto de desenvolvimento, mais chances de que este desenvolvimento venha acompanhado de qualidade de vida, respeito a biodiversidade ecológica e cultural. Esse projeto passa pelo diálogo, nem sempre amistoso, entre multiculturalidades distintas.
E digo, por fim: os e-mails não eram respostas de raiva, foram, antes, uma risada frente a opiniões construídas à base da informação GNT/Multishow, e não do conhecimento feito do pensar. Viva a Res Pública!
Aquele abraço!
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