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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para um novo paradigma de desenvolvimento

É um bom debate, e não tem nada haver com o sexo dos anjos. Valorizar a dimensão subjetiva, o que as pessoas pensam sobre sua vida e seu grau de satisfação da vida mostra que o mito do dinheiro e da valorização somente do consumo e das necessidades materiais não corresponde a uma constatação empírica. Isso rebate, também, a voz unilateral de inúmeros economistas que excluem todas as outras dimensões da vida, focando somente no econômico. Tem haver, também, com o paradigma sobre desenvolvimento dominante.


Para mais leitura sobre o assunto, leia Felicidade Interna Bruta e o Butão, publicada aqui neste espaço, há dias atrás. 

Compartilho estes dois fichamentos: 

GIANNETTI, Eduardo. Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

Indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar

A felicidade sempre foi e continua sendo um grande fim, se não a felicidade suprema, em nome do qual se justificam escolhas na vida pública e privada. Assim como a saúde está para a medicina, o pursuit of happinnes, o bonheur public, a felicitá pubblica seria o objetivo maior frente ao qual toda a maquinaria do processo político, social e econômico constituiria tão-somente um meio adequado e ao qual estaria subordinada.
Uma vez resolvidas certas carências básicas ligadas a bens de primeira necessidade, o desafio da felicidade se torna muito mais uma questão de psicologia e de ética do que propriamente de economia.
O acesso a bens primários traz ganhos líquidos de renda psíquica. Na competição por bens posicionais, ao contrário, os apetites se estendem ao infinito e a escassez está sempre sendo recriada.

A mensagem que a língua cifrada da dor e do prazer físicos nos transmite é inequívoca: a natureza nos quer vivos e dispostos a procriar. 

O que torna as pessoas felizes?

Vem sendo realizada coleta sistemática de evidências e dados empíricos sobre as determinantes da felicidade, por diversos ângulos: estudo do que torna certos estados de consciência mais ou menos aprazíveis; a identificação dos fatores pessoais, socioeconômicos e culturais associados a variações de bem-estar subjetivo; e as bases químicas, hormonais e neurobiológicas das experiências mentais e emocionais que levam alguém a se sentir mais ou menos feliz com a vida que tem.

O bem-estar humano abarca dois componentes básicos: uma dimensão objetiva, passível de ser apurada, observada e medida de fora, e que se reflete nas condições de vida registradas por indicadores numéricos e; uma dimensão subjetiva, que é a experiência interna do indivíduo, tudo aquilo que se passa em sua mente.

O grande desafio para quem se propõe a analisar os determinantes da felicidade na vida e convivência humanas é obter informações e dados empíricos confiáveis sobre a dimensão subjetiva do bem-estar. Como saber se as pessoas estão se sentido mais ou menos felizes com a vida? A saída encontrada foi perguntar a elas.

Uma das descobertas: a relação entre os indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar está longe de obedecer a um padrão bem-comportado. 
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ROJAS, Mariano. El Bienestar Subjetivo em México y sua Relación com Indicadores Objetivos: consideraciones para La política pública.

O propósito da política pública é a busca de um maior bem estar da população.  Existem duas dimensões do bem-estar, uma objetiva, outra subjetiva (a felicidade). Empiricamente, uma contribui para validar ou rechaçar a outra.

1 – o enfoque da investigação em questão:  o conceito de bem-estar subjetivo é de uso mais recorrente em disciplinas como a sociologia e a psicologia. Este conceito está associado a felicidade ou o nível de satisfação de vida que as pessoas declaram como respostas à perguntas feitas a elas. Diretamente a elas.

Vantagens e peculiaridades do bem estar subjetivo: representa um salto qualitativo. Uma investigação integração da qualidade de vida das pessoas, rompendo com a fragmentação do conhecimento e das disciplinas científicas. A pergunta deve ser diretamente respondida pela pessoa, enaltecendo a subjetividade inerente a seu ser e a qualidade de vida. O bem estar pessoal incorpora, nas respostas das pessoas, todas às vivencias diárias (expectativas, aspirações, condições de vida, percepções e outros).

2 – A informação:
Aplicação de questionário, diretamente na casa das pessoas, em espaços públicos e espaços acadêmicos/de pesquisa.  Tomando todo en cuente en sua vida, ¿Que tán feliz es: ( ) muy infeliz; ( ) algo infeliz; ( )ni feliz ni infeliz; ( ) algo feliz; (  )bastante feliz; (  )muy feliz; ( ) extremadamente feliz?

Algumas questões metodológicas interessantes:
Indicadores objetivo não estão estritamente relacionados com o bem estar subjetivo das pessoas. Sobre percepções e condições objetivas – o bem estar subjetivo depende da percepção que a pessoa tem sobre sua posição socioeconômica e da satisfação de suas necessidades materiais. A relação entre a felicidade e a percepção da pessoa sobre sua condição socioeconômica é mais próxima do que a relação entre a felicidade e as condições socioeconômicas objetivas. A pesquisa em questão mostra que 53% das pessoas não se consideram da classe baixa, mesmo que devido as suas condições objetivas de vida ser classificados como pobres.
Nem todos os fatores explicativos do bem estar são igualmente importantes para todas as pessoas, já que sua importância depende da noção de bem estar que cada um tem.

Referente conceitual de felicidade: que se entende por ser feliz? Em que consiste a felicidade? Quais aspirações para ter uma vida considerada satisfeita? Têm todas as pessoas o mesmo referencia? As pessoas avaliam seu bem estar subjetivo com base em sua noção de propósito de vida – referente conceitual da felicidade).

Outra razão: há mais na vida que o nível de vida. Uma pessoa é muito mais que um agente econômico. Sua vida transcorre nos domínios da vida. Essas demarcações são arbitrárias. As pesquisas devem considerar as dimensões desses domínios, contemplando perguntas que possam avaliar essas dimensões (dimensões: saúde; consumo; trabalho; familiar; amizades; pessoal). Cada domínio desses tem um peso específico na pesquisa.

Conclusões: A felicidade de vida é o objetivo final da ação pública:é um equívoco focar somente nas satisfações materiais das pessoas. É errôneo usar unicamente a riqueza como medida do bem estar. Há grandes diferenças entre o que dizem os indicadores objetivos e o que as pessoas percebem como sendo sua condição sócio-econômica. O bem estar subjetivo é mais influenciado pelas percepções do que pelas condições objetivas de posição sócio-econômicas e de satisfação de necessidades materiais. As fontes de bem estar nem sempre são as mesmas para todas as pessoas. Isto porque as pessoas têm diferentes propósitos de vida. As pessoas são mais que somente consumidores. 

domingo, 14 de novembro de 2010

Felicidade Interna Bruta

Desconsidere a fala de artistas pop-stars na mídia espumando Felicidade Interna Bruta como se fosse viver num spa ou playground. Pense este recurso como uma tentativa de quebrar o monopólio do econômico na medição sobre o que é riqueza. Dá um bom debate...


SETH MYDANS
Do New York Times

Enquanto o resto do mundo não consegue compreender esses tempos de infelicidade, um pequeno reino budista no alto das montanhas do Himalaia diz estar trabalhando em uma resposta.


"Ganância, a insaciável ganância humana", disse o primeiro-ministro do Butão Jigme Thinley, descrevendo o que considera a causa da catástrofe econômica do mundo além das montanhas cobertas de neve. "O que precisamos é de mudança", ele disse na fortaleza branca onde trabalha. "Precisamos de felicidade interna bruta."



A noção de felicidade interna bruta foi à inspiração do antigo rei, Jigme Singye Wangchuck, nos anos 1970, como uma alternativa ao produto interno bruto. Agora, os butaneses estão refinando a filosofia norteadora no que eles consideram uma nova ciência política, que amadureceu em uma política governamental num momento em que o mundo pode precisar dela, disse Kinley Dorji, secretário da Informação e Comunicação.

"Você está vendo no que dá a completa dedicação ao desenvolvimento econômico", ele disse, se referindo à crise econômica mundial. "As sociedades industrializadas decidiram agora que o PIB é uma promessa quebrada."

Sob uma nova Constituição adotada no ano passado, programas do governo - da agricultura ao transporte e ao comércio exterior - devem ser julgados não só pelos benefícios econômicos que podem oferecer, mas também pela felicidade que produzem.



O objetivo não é a felicidade em si, o primeiro-ministro explicou um conceito que cada pessoa deve definir por si mesma. Ao invés disso, o governo objetiva criar as condições para o que ele chamou de, em uma versão atualizada da Declaração de Independência americana, "a busca pela felicidade interna bruta."


Os butaneses começaram com um experimento dentro de outro experimento, aceitando a renúncia do popular rei como monarca absoluto e conduzindo a primeira eleição democrática do país há um ano. A mudança faz parte da conquista da felicidade interna bruta, Dorji disse. "Elas soam bem, democracia e FIB. Ambas colocam a responsabilidade no indivíduo. A felicidade é uma busca individual e a democracia é o poder do indivíduo."

Foi um raro caso de renúncia unilateral de um monarca ao poder, e um caso ainda mais raro de renúncia contra a vontade de seus súditos. Ele cedeu o trono a seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, que foi coroado em novembro no novo papel de monarca constitucional sem poder executivo.

O Butão é, talvez, um lugar fácil para se reescrever habilmente as regras econômicas - um país com um aeroporto e dois aviões comerciais, onde só é possível ir de oeste a leste após quatro dias de viagem pelas estradas nas montanhas.

Não mais de 700 mil pessoas vivem no reino, espremidas entre as duas nações mais populosas do mundo, Índia e China, e sua tarefa é agora controlar e administrar as mudanças inevitáveis de seu modo de vida. Este é um país onde cigarros são proibidos e a televisão foi introduzida há apenas 10 anos, onde roupas e arquitetura tradicionais são obrigatórias por lei e onde a capital não tem semáforos e possui apenas um policial de trânsito em serviço.

Para que o mundo leve a felicidade interna bruta a sério, os butaneses admitem, eles devem elaborar um sistema de conceitos e padrões que possam ser quantificados e medidos pelos grandes atores da economia mundial.

"Quando o Butão disse, 'OK, aqui estamos com a FIB,' o mundo desenvolvido, o Banco Mundial, o FMI e assim por diante perguntaram, 'Como se mede isso?'" Dorji disse, caracterizando as reações dos grandes atores econômicos do mundo. Por isso os butaneses produziram um elaborado modelo de bem-estar que conta com quatro pilares, nove domínios e 72 indicadores de felicidade.

Especificamente, o governo determinou que os quatro pilares de uma sociedade feliz envolvem economia, cultura, meio ambiente e boa governança. Eles se dividem um nove domínios: bem-estar psicológico, ecologia, saúde, educação, cultura, padrões de vida, uso do tempo, vitalidade comunitária e boa governança, cada um com seu próprio peso no índice da FIB.

Tudo isso deve ser analisado usando os 72 indicadores. No domínio do bem-estar psicológico, por exemplo, os indicadores incluem a freqüência das preces e da meditação, e de sentimentos de egoísmo, inveja, calma, compaixão, generosidade e frustração, bem como pensamentos suicidas. "Estamos até mesmo decompondo as horas do dia: quanto tempo uma pessoa passa com a família, no trabalho e assim por diante", Dorji disse.

Até mesmo fórmulas matemáticas foram desenvolvidas para decompor a felicidade em suas menores partes. O índice de FIB para bem-estar psicológico, por exemplo, inclui o seguinte: "uma soma das distâncias ao quadrado entre o índice ideal e o real de quatro indicadores de bem-estar psicológico. Aqui, ao invés da média, a soma das distâncias ao quadrado é calculada porque os pesos somam 1 em cada dimensão."

Isso é seguido por uma série de equações: = 1-(0,25+0,03125+0,000625+0)
= 1-0,281875
= 0,718

A cada dois anos, esses indicadores são reavaliados através de um questionário nacional, disse Karma Tshiteem, secretário da Comissão da Felicidade Interna Bruta, sentado em seu escritório no final de um dia duro de trabalho que ele disse tê-lo feito feliz.

A felicidade interna bruta tem uma aplicação mais ampla no Butão, que corre para preservar sua identidade e cultura de intrusos do mundo exterior. "Como um pequeno país como o Butão lida com a globalização?" Dorji perguntou. "Sobreviveremos por nossa distinção, por sermos diferentes."

O Butão está colocando seus quatro pilares, nove domínios e 72 indicadores contra 48 canais de Hollywood e Bollywood que invadiram o país desde que a televisão foi permitida há uma década. "Antes de junho de 1999, se você perguntasse a um jovem quem era nosso herói, a resposta inevitável seria 'O Rei', Dorji disse. "Imediatamente após isso, passou a ser David Beckham, e agora é 50 Cent, o rapper. Os pais se sentem impotentes."

Então, enquanto a FIB possui o segredo da felicidade para as pessoas que estão sofrendo com o colapso das instituições financeiras no exterior, ela oferece algo mais urgente aqui nesta cultura antiga. "A história do Butão hoje é, em uma palavra, sobrevivência", Dorji disse. "A felicidade interna bruta é sobrevivência; como combater uma ameaça à sobrevivência."
Tradução: Amy Traduções

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The New York Times

Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI3753441-EI8143,00-Butao+estuda+recalcular+PIB+para+felicidade+interna+bruta.html
Acessado em 10/11/2010

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