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domingo, 18 de setembro de 2011

Carta às esquerdas

Por Boaventura de Sousa Santos 

Livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação de algumas ideias. A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas. 

Não ponho em causa que haja um futuro para as esquerdas mas o seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado. Definir o que têm em comum equivale a responder à pergunta: o que é a esquerda? A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante. 

Os diferentes entendimentos deste ideal levaram a diferentes clivagens. As principais resultaram de respostas opostas às seguintes perguntas. Poderá o capitalismo ser reformado de modo a melhorar a sorte dos dominados, ou tal só é possível para além do capitalismo? A luta social deve ser conduzida por uma classe (a classe operária) ou por diferentes classes ou grupos sociais? Deve ser conduzida dentro das instituições democráticas ou fora delas? O Estado é, ele próprio, uma relação de dominação, ou pode ser mobilizado para combater as relações de dominação? 

As respostas opostas as estas perguntas estiveram na origem de violentas clivagens. Em nome da esquerda cometeram-se atrocidades contra a esquerda; mas, no seu conjunto, as esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas. Este curto século de todas as esquerdas terminou com a queda do Muro de Berlim. Os últimos trinta anos foram, por um lado, uma gestão de ruínas e de inércias e, por outro, a emergência de novas lutas contra a dominação, com outros atores e linguagens que as esquerdas não puderam entender. 

Entretanto, livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação das seguintes ideias:

Primeiro, o mundo diversificou-se e a diversidade instalou-se no interior de cada país. A compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo; não há internacionalismo sem interculturalismo. 

Segundo, o capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, ele a reduz à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas. 

Terceiro, o capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas). 

Quarto, a experiência do mundo mostra que há imensas realidades não capitalistas, guiadas pela reciprocidade e pelo cooperativismo, à espera de serem valorizadas como o futuro dentro do presente. 

Quinto, o século passado revelou que a relação dos humanos com a natureza é uma relação de dominação contra a qual há que lutar; o crescimento económico não é infinito. 

Sexto, a propriedade privada só é um bem social se for uma entre várias formas de propriedade e se todas forem protegidas; há bens comuns da humanidade (como a água e o ar). 

Sétimo, o curto século das esquerdas foi suficiente para criar um espírito igualitário entre os humanos que sobressai em todos os inquéritos; este é um patrimônio das esquerdas que estas têm vindo a dilapidar. 

Oitavo, o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer, do racismo ao sexismo e à guerra e todas devem ser combatidas. 

Nono, o Estado é um animal estranho, meio anjo meio monstro, mas, sem ele, muitos outros monstros andariam à solta, insaciáveis à cata de anjos indefesos. Melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca. 

Com estas ideias, vão continuar a ser várias as esquerdas, mas já não é provável que se matem umas às outras e é possível que se unam para travar a barbárie que se aproxima. 

*Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

terça-feira, 28 de setembro de 2010

SOCIOLOGIA DAS AUSÊNCIAS.

SOCIOLOGIA DAS AUSÊNCIAS.

Estou aprofundando algumas leituras sobre a sociologia das ausências. Estou refletindo se ela pode ser um bom instrumental analítico para pensar a política cultural de maneira pluralista e de democratização cultural, rompendo com a monocultura do saber e do poder. Segundo Santos (2005),

“A sociologia das ausências é uma pesquisa que visa demonstrar que o que não existe é, na verdade, activamente produzido como não-existente, isto é, como uma alternativa não-credível ao que existe. O seu objecto empírico é considerado impossível à luz das ciências sociais convencionais, pelo que a sua simples formulação representa já uma ruptura com elas. O objectivo da sociologia das ausências é transformar objectos impossíveis em possíveis, objectos ausentes em presentes”.

Com a sociologia das ausências proposta por Santos (2005), os silêncios e as invisibilidades sociais passam a ganhar visibilidade e concretude, haja vista a nova racionalidade que ele insere no estudo da realidade. O conceito, cunhado pelo sociólogo português é um dos resultados de uma pesquisa com a sua coordenação, visando estudar as alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo global. O principal objetivo desta pesquisa era “determinar em que medida a globalização alternativa está a ser produzida, a partir de BAIXO e quais são suas possibilidades e limites”. Para isso, estudaram-se casos envolvendo movimentos sociais, iniciativas locais e outras alternativas em seis países: Moçambique, Portugal, Brasil, Índia, Colômbia e África do Sul.

Foram analisadas 5 áreas temáticas: a) Democracia Participativa; 2) Sistemas de produção alternativos e Economia Solidária; 3) Multiculturalismo, direitos coletivos, pluralismo jurídico e cidadania cultural; 4) Alternativas ao Direito de Propriedade Intelectual e Biodiversidades Capitalistas; 5) Novo internacionalismo operário.

Partindo da idéia de que “a experiência social em todo mundo é mais ampla e variada do que a tradição científica e filosófica ocidental conhece e considera importante” e que esta riqueza social está a ser desperdiçada, Santos propõe um modelo diferente de racionalidade. Para combater este desperdício e tornar visíveis as iniciativas de movimentos alternativos é necessária um a Razão Cosmopolita, fundada em três procedimentos sociológicos: “sociologia das ausências; sociologia das emergências e; trabalho de tradução”.

O ponto de partida do pensamento de Boaventura de Souza Santos, é que a compreensão do mundo excede em muito a compreensão ocidental de mundo. Dois elementos centrais para compreender o mundo são as concepções de tempo e temporalidade. Desta forma, argumenta Santos, a concepção ocidental contrai o presente e expande o futuro, tendo o presente um “instante fugidio, entrincheirado entre o passado e o futuro”.

É justamente essa lógica que a Razão Cosmopolita propõe alterar: “terá de seguir a trajetória inversa, expandir o presente e contrair o futuro”. Para contrair o futuro, a sociologia das emergências; para expandir o presente, a sociologia das ausências.

É um empreendimento que visa romper algumas monoculturas. Existem, de acordo com Santos (2005), cinco lógicas de produção de “não-existências” que a Razão Cosmopolita transgride:

a)monocultura do saber ou do rigor do saber – o poder e o status são conferidos e legitimados pela ciência moderna ou pela alta cultura. Além disso, não de importante existiria;

b)monocultura do tempo linear – a História é vista numa perspectiva evolucionista, rumo ao progresso, de maneira linear, tornando invisível aquilo que não comunga com o desenvolvimento;

c)monocultura da naturalização das diferenças: erige hierarquias, naturaliza classificações raciais e sexuais, classificando o social de modo arbitrário. Se não adequada a um padrão, é inferior.

d)monocultura do universal e do global: o local é menos importante, porque aprisionado entre escalas que o incapacitam de ser alternativa. As tendências homogeneizantes da globalização e do capitalismo contemporânea.

e)monocultura dos critérios de produtividade e de eficácia – só interessa os processos de produção com muito lucro, valorizando a produção e quantificação das coisas e das pessoas. Se não produtivo, desnecessário.

A sociologia das ausências torna visível o que não aparece porque não é importante perante as hierarquias do capitalismo e da globalização contemporânea e mesmo da ciência moderna e da alta cultura. É preciso, então, a sociologia das emergências para “identificar e valorizar as experiências desperdiçadas pelo conhecimento hegemônico, em seguida, na sociologia das emergências, a tarefa cognitiva é investigar e ampliar as alternativas concretas de futuro naqueles saberes, práticas ou sujeitos que estavam ocultos pela racionalidade conservadora. Trata-se de uma ampliação simbólica, que visa maximizar a esperança e minimizar a frustração” (SILVA, 2007).

BIBLIOGRAFIA

SILVA, Sara Maria de Andrade. A ‘Sociologia das Ausências como uma nova racionalidade para o conhecimento: breves considerações sobre o campo da mídia e do direito como monoculturas hegemônicas. In: Revista da FARN, Natal, v.6, n. 1/2, p. 21-32, jan./dez. 2007

SANTOS, Boaventura de Sousa (2002), "Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências", Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, 237-280.

contato: bsantos@ces.uc.pt