quinta-feira, 23 de setembro de 2010

OPINIÃO -E a imprensa brasileira vai dar o salto para a contemporaneidade?

A fala de Lula, cobrando da mídia que saia da tocaia e revele sua parcialidade travestida de imparcialidade, parece um momento importante na história dos meios de comunicação aqui no Brasil.

Assumir seu posicionamento ideológico, respeitando o público e a própria informação, obriga a grande mídia nativa, Globo, Record, Veja, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, RBS (pra ficar nas nossas mais conhecidas) a ser contemporânea. Explico: em países com sociedade civil atuantes, o papel da mídia como ator social foi problematizado, o seu monopólio e legitimidade questionados. A identidade da mídia acompanhou desta forma, as mudanças fundamentais que ocorriam na sociedade cada vez mais plural, laica e fragmentada. Isso obrigou a mídia a assumir-se mais como veículo de uma idéia de mundo, em que certas posições serão privilegiadas, mas de maneira honesta perante o leitor. Nesses países, os veículos de informação mais importante posicionam-se perante o eleitorado e abrem seu voto, defendendo um projeto político específico como sendo o melhor, mais apropriado para o país.

Aqui no Brasil isso não acontece. Existe o mito de que jornalista e, principalmente, o veículo de mídia são isentos, já que seria uma “voz” muito fundamental na esfera pública da sociedade. A minha tese é que as relações sociais estabelecidas entre meios de comunicação e sociedade brasileira ainda é meio coronelista, arcaica, a voz da verdade.

O fato é que elas são donas de uma verdade. O Editorial do Estado, de hoje do Estado de São Paulo (“O desmanche da democracia”), iniciou movimento no sentido de “abrir” sua preferência. Óia só: “Intelectuais, juristas, profissionais liberais, artistas, empresários e líderes comunitários – todos eles figuras de projeção – lançaram ontem em São Paulo um “manifesto em defesa da democracia”, que poderá ser o embrião de um movimento da cidadania contra o desmanche da democracia brasileira comandado por um presidente da República que acha que é tudo – até a opinião pública – e que tudo pode (…)”

A Revista Carta Capital faz isso há muito tempo. É mais honesto saber que leio matérias de uma revista que abre votos para candidato X. Sempre a lerei como um fragmento do contexto, mas não como a verdade.

Esses veículos que citei acima precisam enfrentar a multidão, já que a opinião pública já não é tão coesa, e defender legitimamente os projetos de mundo que defendem. O monopólio da escrita foi ao chão. convivemos com uma diversidade de meios de informação que são hiperlinkadas, visuais, comunitárias. Nos vemos de outra maneira e por outros mecanismos.

Sou da opinião de Habermas, de que o debate deve ser de argumentos, sem verdades totalizantes. A mídia tem que se assumir ramo empresarial com interesses próprios. É questão de transparência e democracia. Apesar de pertinente se perguntar, Dilma é ideal?, este modelo encontrado para os últimos dias mostra o desesperado em ter de ser contemporânea.

ACONTECEU!

A imprensa no pós-Lula

25 de setembro de 2010 | 0h 00

O presidente Lula interrompeu a sucessão de pesados ataques aos meios de comunicação. Não que tenha mudado a sua peculiar visão do que seja a liberdade de imprensa - para ele, sinônimo de "informar corretamente", deixando implícito que se considera juiz, como governante, não como leitor, do que possa ser informação correta e o seu oposto. Mas mudou de tom. Numa longa entrevista ao portal Terra, divulgada na quinta-feira, Lula trocou a agressão pela crítica civilizada. Refutou as acusações de autoritarismo que se seguiram aos seus canhonaços e disse duvidar que exista um país com mais liberdade de comunicação do que o Brasil, "da parte do governo".

Esquece-se convenientemente de que o Planalto patrocinou em 2004 o projeto do Conselho Federal de Jornalismo que pretendia "orientar, fiscalizar e disciplinar" a atividade de informar. Diante da vigorosa reação da sociedade, o governo deixou a proposta morrer. De todo modo, a imprensa brasileira é hoje tão livre como era no primeiro dia de Lula presidente. Quando não é, como no caso da censura prévia imposta a este jornal, o problema se origina no Judiciário. A questão suscitada por algumas das afirmações de Lula na mencionada entrevista diz respeito ao futuro, dependendo de quem der as cartas nesse jogo, na hipótese de eleição da candidata Dilma Rousseff.

Disse o presidente que "duas ou três famílias são donas dos canais de televisão, e as mesmas são donas das rádios e donas dos jornais". (Nem por isso ele exprime desconforto com o fato de que o patriarca de uma dessas famílias é o seu dileto aliado José Sarney.) Disse também, embora não tivesse empregado o termo, que a propriedade cruzada dos meios de comunicação terá de ser revista no próximo governo, ou nos próximos governos, quando o Congresso deverá inexoravelmente estabelecer um novo marco regulatório do setor de telecomunicações. "Discutir isso", ressaltou, "é uma necessidade da nação brasileira." De pleno acordo. Não é de hoje que o Estado critica a concentração da propriedade na mídia e as facilidades para que um punhado de grupos econômicos controle, numa mesma praça, emissoras e publicações.

Ocorre que a exortação de Lula não pode ser dissociada das investidas petistas contra a autonomia da produção jornalística. Em circunstâncias normais, a preocupação manifestada pelo presidente seria salutar e merecedora de apoio. Mas ela pode ser tudo menos isso. É como na Argentina. Há pouco tempo, o governo da presidente Cristina Kirchner fez o Congresso aprovar uma Lei de Meios, a qual, tomada pelo valor de face, se destinaria a coibir a formação de conglomerados de comunicação, abrangendo, além das modalidades tradicionais, serviços de internet, TV a cabo e telefonia. Mas, ao dotar o governo de amplos poderes para intervir no setor, esse marco regulatório tem o claro propósito de dar à Casa Rosada poder para premiar a imprensa complacente e asfixiar aquela que ainda não desertou de suas funções de fiscalização e crítica.

Imaginem-se, portanto, os riscos de que um Congresso dominado pela coalizão lulista - e sob pressão dos "movimentos populares" atrelados ao PT - venha a impor uma legislação semelhante à do país vizinho, com o mesmo fim. Não se trata de fantasia. O ambiente para tal vem sendo laboriosamente construído pelos garroteadores em potencial da mídia. Entre um golpe de borduna e outro do presidente, por exemplo, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, cujas ambições partidárias no pós-Lula são amplamente conhecidas, aparece falando em "abuso do poder de informar" - uma óbvia senha para a companheirada. Seria o cúmulo da ingenuidade não ligar os pontos dessa urdidura.

O único dado alentador, no momento, foram as declarações de Dilma em defesa da liberdade de imprensa. A candidata não só tornou a repetir a boutade de que o único controle social da mídia que aprova é o controle remoto do televisor, como prometeu que, se eleita, não tentará impedir que a imprensa fale dela o que bem entender. "No máximo", antecipou, "vou dizer: está errado, por isso, por isso e por isso." É esperar que a sua posição prevaleça, se ela for a próxima presidente - que esperamos que não aconteça.

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