Segue meu depoimento sobre os fatos daquela noite...
DEPOIMENTO DE MÁRCIO JOSÉ CUBIAK SOBRE OS FATOS DAQUELA NOITE DE INVERNO (OU SERIA PRIMAVERA).
Naquela noite, depois de ser parte do caldo de um panelaço, subimos as frágeis escadas da Fundação Cultural de Blumenau. Éramos poucos, mas, simultaneamente, muitos. Teve artista consolidado, em ascensão, em decadência, teve estudante para artista, gente calma de muitas áreas culturais: teatro, produção cultural, artes visuais, da música, das letras, do underground e da “soçaite” das artes blumenauenses. Teve até Centro Acadêmico de Medicina!
Um tema nos uniu e uma infinidade de ausências do poder público nos revoltou. Panelas tocavam “palavrões” que nós não podíamos dizer, por causa do processo civilizador, não só pelas esquisitices do Edital e dos pagamentos do Salão Elke Hering. Em questão, esquentando nosso sangue comum, estavam à precariedade da estrutura física dos equipamentos de cultura, em franco processo de desaparecimento por quedas e outros problemas, e as políticas públicas de cultura que, ao invés de serem incrementadas, sumiam. Foi o caso do Casarão das Oficinas, ou dos ouvidos surdos do poder público para as proposições dos interessados do campo artístico de Blumenau, ainda em construção.
Naquela noite, uma reunião mediada pelo Conselho Municipal de Cultura de Blumenau, estava presente o ausente Diretor de Cultura da Instituição, outra diretora e a Mandatária da FCblu. Esta última ouviu coisas duras sobre sua atuação: faz parte do processo democrático – os agentes estatais estão cada vez mais sob os holofotes e olhares da sociedade civil – e do controle social partilhado. Foi uma festa democrática, um privilégio de apenas alguns países do mundo. Tod@s foram muit@ franc@s ao se dirigir para as autoridades. A sociedade tinha percepções que exigiam do poder público, respostas.
Eu mesmo recordo de ter dito: incompetente, não faz jus ao cargo (realmente, um privilégio: mas com gosto de beleza, porque continha, na síntese ‘incompetente’ toda a feiúra da verdade dos últimos vários anos de administração da Fundação Cultural de Blumenau). Mas foi na confusão entre um adjetivo com um substantivo, algo como “vocês são desonestos por não aceitar o erro”, que a liberdade de expressão sofreu um golpe danado, daqueles que tem poder e advogados a disposição para processar outros por “desacato”. Esse crime tão afoito a ditaduras.
Toda solidariedade a livre expressão e ao desacato a todas as autoridades, sejam políticas ou econômicas, que se consideram, na democracia, ‘indesacatáveis’. Como disse o tio do Peter Parker, no seu leito de morte, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.
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