terça-feira, 9 de agosto de 2011

Teatro de grupo e gestão cultural

Reflexão proposta em uma mesa "Teatro de Grupo e Gestão Cultural", durante a comemoração dos 15 anos. Síntese de minha participação (e intenção...)

A contemporaneidade vem trazendo cada vez mais o campo da cultura para próximo da Economia e da Política. Neste sentido, grupos e organizações culturais acabam por trabalhar num terreno multidimensional, em que o simbólico, o econômico e a cidadania convivem de maneira tensa e criativa. A essa dinâmica, o espanhol Arturo Rodriguez Morató[1] chama de “Sociedade da Cultura”, isto é, em que os discursos e os bens culturais tornam-se centrais para as sociedades ocidentais. Fredric Jameson (1996) argumenta que no capitalismo tardio de nossa época, a própria lógica do sistema é cultural.
A gestão cultural é um tema muito recente e que vem se apresentando como importante instrumento dessa relação entre ‘cultura-economia-política’. Ela deve ser apropriada de maneira dialética, sem que grupos e organizações culturais se tornem refém de técnicas que reduzem essa multidimensionalidade a mera administração das coisas e rotinas. A gestão cultural deve ser pensada de forma desafiadora, sempre procurando novas sínteses que dêem conta da complexidade dos dias de hoje.  Neste sentido, um gestor cultural é “um mediador entre a dimensão subjetiva e sensível da cultura e os outros campos da experiência humana”, um “profissional da complexidade” conforme José Márcio Barros (2010).
O teatro de grupo pode e deve se beneficiar desse instrumento, procurando manuseá-lo para ampliar sua autonomia, protagonismo e sustentabilidade. É necessário encarar a gestão cultural, dentro do teatro de grupo, como mecanismo para reduzir as dependências financeiras em relação ao Estado e a iniciativa privada, sem negar as responsabilidades desses agentes. Mas a gestão cultural não se reduz ao financiamento. A gestão pode contribuir para a inserção dos grupos e organizações culturais no cotidiano do seu entorno e território; contribuir para o planejamento das ações e dos projetos, permitindo a definição de escolhas que sejam capazes de enfrentar os infinitos problemas que sujeitos e grupos que vivem da arte e da cultura enfrentam diariamente para a concretização do seu trabalho; deve gerar diálogos e redes com outros agentes sociais e culturais e; assegurar a liberdade de criação. As características colaborativas e associativas do chamado Teatro de Grupo permitem tomar a Gestão Cultural como laboratório criativo e poético de novas maneiras de se relacionar com a experiência social que a cerca.
Portanto, é fundamental aos grupos e organizações culturais, especialmente os grupos de teatro com trabalhos e dinâmicas cotidianas e permanentes, participar da produção de políticas culturais em que Estado, Iniciativa Privada e a sociedade civil assumam seus responsabilidades, mas indo para bem mais além da imaginação burocrática e mercadológica. As políticas culturais devem ser parte de uma Utopia que potencialize a diversidade de expressões culturais, reconhecendo a cultura como “arena de uma sociedade mais pluralista” (BARROS, p. 67, 2010).

Referências:
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Editora Ática, 1996.
BARROS, José Márcio. Processos (trans)formativos e a gestão da diversidade cultural. In: CALABRE, Lia (org). Políticas culturais: reflexões sobre gestão, processos participativos e desenvolvimento. São Paulo: Itaú Cultural; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2010, p.60-70.


[1] Palestra em 03 de agosto de 2011, durante VII ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Salvador – Bahia.

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