Mostrando postagens com marcador gestão cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gestão cultural. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de março de 2012

gestão cultural transformadora


Pontos para uma gestão cultural transformadora (parte 1)

É a cultura o fio condutor que une o direito à saúde, ao transporte, à moradia, à escola, ao trabalho… à cidadania.

Por Célio Turino [12.03.2012 17h20]

Publicado no SPressoSP



1 – Cultura como filosofia de governo

Apontar a centralidade da cultura nos programas de governo, tanto federal, como estaduais e municipais, não é fácil. Esse reconhecimento não significa deixar de lado compromissos específicos, sejam eles de atendimento a comunidades (moradores de determinadas regiões, recorte étnico, de gênero, de classe ou etário) ou temáticos, como habitação, saneamento, transportes. Eles continuam no foco, mas com uma abordagem cultural. É possível imaginar a formulação de uma Cultura de Paz (prefiro este conceito a formulações como “Cultura e Lazer para combater a violência”) sem a construção e desenvolvimento de ações de convivência, lazer e cultura? Ou um trânsito civilizado sem uma cultura de respeito ao pedestre, sem respeito à vida?
Uma das principais realizações do governador Cristóvão Buarque em Brasília foi o programa Educação no Trânsito. Quem visita a cidade e circula a pé por suas quadras entenderá o que estou dizendo; basta pisar na faixa de pedestre ou levantar o braço pedindo passagem que os carros param. Um sopro de civilidade e cultura na capital do país. Isso acontece em Brasília, uma obra de trânsito que não precisou de viadutos ou túneis, e que reverteu uma situação em que o Distrito Federal figurava como o campeão de mortes violentas no trânsito. Mesmo com a mudança de governo esta obra permanece até hoje. Permanece porque entrou no espírito do povo. Uma obra cultural, portanto.
CONTINUAR LENDO PARTE 01

Pontos para uma gestão cultural transformadora (parte 2)

Espaços tradicionalmente não aproveitados para o uso regular da arte, como escolas, sindicatos, igrejas, ruas e praças, ganham força e qualidade ao demonstrar que a cultura está presente em todos os lugares e em todas as pessoas.

Por Célio Turino [20.03.2012 13h00]
Publicado no SPressoSP

 

2 – Cultura como processo

O nome já diz, cultura, do latim colere, cultivo. Cultivar a mente é a mesma coisa que cultivar a vida, produzir alimentos, manejar o ambiente. Como se faz para cultivar alimentos (ao menos enquanto os transgênicos ou pílulas cibernéticas – todos devidamente patenteados e com poucos donos ganhando muito dinheiro – não tomam conta do planeta)? Prepara-se a terra, depois a semeadura, o acompanhamento do crescimento das plantinhas, o cuidado com elas evitando ervas daninhas e pragas, a irrigação… Depois a colheita. E após a colheita, a seleção das sementes, o preparo da terra, o cuidado com as plantas, a irrigação… Depois a colheita. Depois, tudo novamente.
Em política cultural também devemos agir assim. O zelo com o patrimônio, sem o qual não temos base para nos projetar para o futuro; a formação continuada dos cidadãos em programas de educação integral ou cursos livres, oficinas e interações estéticas (e éticas) voltadas para todas as idades, gênero ou classe social. O fomento à produção e criação artística e simbólica, com liberdade e transgressão.
Preserva-se o patrimônio cultural ou ambiental, formam-se as pessoas e se fomenta a criação simbólica e artística, não para deleite de poucos, mas para a fruição ampla. Por isso a necessidade da difusão e circulação dos bens culturais, que devem ir muito além de eventos. Em uma política cultural consistente o evento é resultado de um processo, nunca um fim em si mesmo. Um processo de irrigação constante, que preserva, forma, fomenta, difunde… E se recria. Cultura, cultivo, colere.
CONTINUE LENDO PARTE 02

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Teatro de grupo e gestão cultural

Reflexão proposta em uma mesa "Teatro de Grupo e Gestão Cultural", durante a comemoração dos 15 anos. Síntese de minha participação (e intenção...)

A contemporaneidade vem trazendo cada vez mais o campo da cultura para próximo da Economia e da Política. Neste sentido, grupos e organizações culturais acabam por trabalhar num terreno multidimensional, em que o simbólico, o econômico e a cidadania convivem de maneira tensa e criativa. A essa dinâmica, o espanhol Arturo Rodriguez Morató[1] chama de “Sociedade da Cultura”, isto é, em que os discursos e os bens culturais tornam-se centrais para as sociedades ocidentais. Fredric Jameson (1996) argumenta que no capitalismo tardio de nossa época, a própria lógica do sistema é cultural.
A gestão cultural é um tema muito recente e que vem se apresentando como importante instrumento dessa relação entre ‘cultura-economia-política’. Ela deve ser apropriada de maneira dialética, sem que grupos e organizações culturais se tornem refém de técnicas que reduzem essa multidimensionalidade a mera administração das coisas e rotinas. A gestão cultural deve ser pensada de forma desafiadora, sempre procurando novas sínteses que dêem conta da complexidade dos dias de hoje.  Neste sentido, um gestor cultural é “um mediador entre a dimensão subjetiva e sensível da cultura e os outros campos da experiência humana”, um “profissional da complexidade” conforme José Márcio Barros (2010).
O teatro de grupo pode e deve se beneficiar desse instrumento, procurando manuseá-lo para ampliar sua autonomia, protagonismo e sustentabilidade. É necessário encarar a gestão cultural, dentro do teatro de grupo, como mecanismo para reduzir as dependências financeiras em relação ao Estado e a iniciativa privada, sem negar as responsabilidades desses agentes. Mas a gestão cultural não se reduz ao financiamento. A gestão pode contribuir para a inserção dos grupos e organizações culturais no cotidiano do seu entorno e território; contribuir para o planejamento das ações e dos projetos, permitindo a definição de escolhas que sejam capazes de enfrentar os infinitos problemas que sujeitos e grupos que vivem da arte e da cultura enfrentam diariamente para a concretização do seu trabalho; deve gerar diálogos e redes com outros agentes sociais e culturais e; assegurar a liberdade de criação. As características colaborativas e associativas do chamado Teatro de Grupo permitem tomar a Gestão Cultural como laboratório criativo e poético de novas maneiras de se relacionar com a experiência social que a cerca.
Portanto, é fundamental aos grupos e organizações culturais, especialmente os grupos de teatro com trabalhos e dinâmicas cotidianas e permanentes, participar da produção de políticas culturais em que Estado, Iniciativa Privada e a sociedade civil assumam seus responsabilidades, mas indo para bem mais além da imaginação burocrática e mercadológica. As políticas culturais devem ser parte de uma Utopia que potencialize a diversidade de expressões culturais, reconhecendo a cultura como “arena de uma sociedade mais pluralista” (BARROS, p. 67, 2010).

Referências:
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Editora Ática, 1996.
BARROS, José Márcio. Processos (trans)formativos e a gestão da diversidade cultural. In: CALABRE, Lia (org). Políticas culturais: reflexões sobre gestão, processos participativos e desenvolvimento. São Paulo: Itaú Cultural; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2010, p.60-70.


[1] Palestra em 03 de agosto de 2011, durante VII ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Salvador – Bahia.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

As três características da política cultural brasileira

Na semana que passou, participei do Seminário Financiamento e Gestão Cultural, organizado pelo Observatório Itaú Cultural e Fundação Cultural de Curitiba, cidade que sediou o encontro. Foi bom estar em aula com algumas bibliografias que subsidiam meu repertório teórico. Albino Rubim, Claúdia Leitão, Paulo Miguez e José Márcio Ribeiro, pesquisadores dedicados a reflexão sobre Cultura e Sociedade.

Importante ressaltar que o Brasil vive um novo momento dentro do seu quadro de institucionalização da cultura. De acordo com o professor RUBIM, a política cultural brasileira sempre foi marcada por três características:ausência, autoritarismo e instabilidade. Vou apontando algumas sistematizações pós-curso, para socializar e compartilhar esse debate. O conteúdo desta postagem é a sistematização da aula do professor Rubim (pesquisador do Cult - Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura).

As ausências referem-se às dividas históricas para com os povos tradicionais do continente, quando da chegada dos portugueses até o presente momento, como os favelados, os ribeirinhos e todo mais um universo de grupos invisíveis. As ausências também dizem respeito ao vários períodos em que o Estado foi omisso, seja no período do império ou republicano. As primeiras intervenções do Estado sob a forma de políticas públicas foram inauguradas pelo poeta Mário de Andrade (Departamento de Cultura de São Paulo – 1935-1938) e Gustavo Capanema (ministro da Educação, 1934-1945). Isto não representa que as ausências do Estado desapareceram e as políticas culturais postas na pauta da estrutura pública. Durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso como presidente do Brasil, foi notório e crítico o abandono das políticas culturais por parte do Ministério da Cultura. Esse período é lembrado pelo slogan “Cultura é um bom negócio”, transferindo a definição sobre o que é financiável ou não na área das artes e da cultura para o departamento de marketing das empresas. Tudo isso através da renuncia fiscal, especialmente via Lei Rouanet.

A característica do autoritarismo é uma triste constatação de que grande parte do arcabouço institucional das Artes e Cultura com abrangência nacional foi mobilizado pelos governos militares, uma vez que a ditadura postula a “união nacional”, com o incentivo a uma cultura nacional, brasileira. Nesse período surge a FUNARTE (1975), RÁDIOBRÁS (1976), CONSELHO NACIONAL DE CINEMA (1976) dentre outros. Os militares realizam a transição de um movimento cultural baseado no trabalho grupal, de caráter experimental e com territorialidades singulares, amplamente ligados a Universidade para a cultura midiática assentada nos padrões de mercado, especialmente através do fortalecimento e do privilégio oferecido a Televisão.

A instabilidade esta relacionada com a fragilidade institucional que conduziu o país a assistir, por exemplo, a criação do Ministério da Cultura, em 1985 para ser desmantelado pelo governo Collor, em 1990, sendo recriado em 1993, no governo Itamar Franco. O dado mais chocante é que num período de 9 anos (1985-1994) nada mais que dez ministros passaram pela incipiente e frágil estrutura da época. Foram 5 ministros durante o governo Sarney, 2 com Collor e 3 com o presidente Itamar.


Enfrentamentos

Abordo, agora, o que vem acontecendo neste momento na política cultural brasileira, especialmente nos últimos 08 anos de gestão Gil/Juca. Albino Rubim chama de enfrentamentos.

As três características, vale lembrar: ausência - autoritarismo e instabilidade.
Os últimos 08 anos do Ministério da Cultura, sob a gerência de Gilberto Gil e Juca Ferreira percebeu-se o Estado com um papel ativo. "Formular políticas culturais é fazer cultura", dizia Gil, enfrentando as ausências doa agentes públicos.

Foi, também, um momento importante para conceituação do que é Cultura, tendo como conseqüências um olhar mais abrangente sobre a noção de cultura, numa perspectiva antropológica, sociológica e econômica. Isso reflete nos editais voltados para a cultura popular e as comunidades tradicionais.

Foram incluídas como beneficiados da ampliação do conceito, comunidades ribeirinhas, quilombolas, indígenas, afro-brasileiras. Foram incluídas as dimensões de gênero e orientação sexual. Encoraja-se a Cultura como um direito social fundamental. É um enfrentamento direto a visão autoritária de cultura, baseada na identidade nacional, ser brasileiro é...

No campo institucional, visando romper com a instabilidade, um rol de propostas para emenda constituticional: PEC 150 (Vinculação orçamentária para Cultura), PEC 416 (Sistema Nacional de Cultura). Assiste-se, também, a organização do Plano Nacional de Cultura, a volta do planejamento público e a ampliação orçamentária. Os órgãos vinculados ao Ministério, como a FUNARTE, IPHAN tem suas estruturas modificadas e orçamento ampliados.

DESAFIOS E LIMITAÇÕES.

Albino Rubim aponta:

a) Maiores esforços para delimitar a noção de cultura, para não cair no nada - "fazer tudo e nada", focar a atuação do Ministério. Qual campo atuar? Se Cultura é multidimensional, como relacionar-se com os agentes públicos e privados, além da sociedade civil e a não-organizada?
b) Repensar o papel do Estado: tecer a urdidura de um Estado que não seja centralizador e todo poderoso-, com uma atuação instrumental para atingir metas. Muito menos o Estado mínimo dos tempos de Fernando Henrique Cardoso, "Cultura é um bom negócio".
As Políticas Culturais devem ser construídas em parceria com a sociedade, de maneira democrática, através de políticas públicas. É possível um Estado ativo sem dirigismo? O Estado deve produzir Cultura como é feito com a produção científica (85% da produção científica nacional é feitas nas universidades públicas)?
c) É preciso ampliar a estrutura do Estado - se for para ter um estado atuante é preciso a contratação de mais servidos públicos, além de que o ministério está centrado basicamente em Brasília e Rio de Janeiro. Se é importante nacionalizar a atuação do MinC, é preciso descentralizar.
d) Repensar o financiamento da Cultura - os incentivos fiscais, modalidade hegemônico no Brasil, através da Lei Rouanet, não estimulam a diversidade cultural. É preciso construir mecanismos de financiamento mais adequados as novas políticas culturais, tendo o Estado como financiador importante, como é na maioria dos países ocidentais. A Lei Rouanet foi inapropriada para induzir sustentabilidade a uma cadeia produtiva cultura, concentrando recursos em cidades e grupos específicos.

Existem enormes dificuldades para financiar a produção, a distribuição e o consumo. São necessários esforços dos agentes culturais para a aprovação da PEC 150, Lei PROCULTURA que podem receber resistência de grupos privilegiados e prefeitos avessos a vinculação orçamentária.