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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Uma questão que vai além do aspecto jurídico.

Por Márcio Cubiak
Artigo publicado no Jornal Expressão Universitária
Edição 21 - Mês Junho de 2011.
Acessar Jornal: AQUI.

Até o dia 15 de julho, o Ministério da Cultura deverá encaminhar à Casa Civil novo anteprojeto com a revisão da Lei de Direitos Autorais (LDA). Antes disso, o ministério abre novo certame de consulta publica, entre os dias 25 de abril e 30 de maio, visando contemplar as “múltiplas visões” sobre o tema, desejando uma proposta de maior “consenso”. Para a Secretaria de Direitos Intelectuais “detectou sete pontos[1] que merecem aperfeiçoamento e consenso”. Cabe lembrar que o Ministério da Cultura já havia feito uma extensiva consulta pública sobre o assunto. Este tema, fundamental para o campo artístico e econômico na contemporaneidade, é também, objeto de polêmica desde o início da gestão de Ana de Hollanda. 

O Ministério da Educação e Cultura foi criado em 1953, mas somente em 1975 é que se organiza uma política nacional de cultura.  No entanto, a institucionalização da cultura ocorre de maneira desigual ao longo do território nacional. Foi sempre marcada pela fragilidade institucional que conduziu o país a assistir, por exemplo, a criação do Ministério da Cultura, em 1985 para ser desmantelado pelo governo Collor, em 1990, sendo recriado em 1993, no governo Itamar Franco. O dado mais chocante é que num período de 09 anos (1985-1994) nada mais que dez ministros passaram pela incipiente e frágil estrutura da época. Durante o mandato de Fernando Henrique, foi notório e crítico o abandono das políticas culturais por parte do Ministério da Cultura. Esse período é lembrado pelo slogan “Cultura é um bom negócio”.
Os últimos 08 anos do Ministério da Cultura, sob a gerência de Gilberto Gil e Juca Ferreira, o Estado teve sua atuação redefinida. "Formular políticas culturais é fazer cultura", dizia Gil. Foi um período importante para conceituação do que é Cultura para a gestão pública, tendo como conseqüências um olhar mais abrangente do governo federal sobre a noção de cultura, numa perspectiva antropológica, sociológica e econômica. Encorajou-se a Cultura como um direito social fundamental das pessoas. Assistiu-se, também, a sanção pelo presidente da República do Plano Nacional de Cultura permitindo a volta do planejamento público na área; desenhou-se um Sistema Nacional de Cultura; aconteceram duas edições da conferência nacional de cultura, arena que se legitimou como espaço público de orientação na produção de políticas públicas. Por fim, a ampliação gradual do orçamento da pasta, finaliza o reposicionamento democrático do Estado. Pesa contra essa gestão, a sua dificuldade em apresentar uma proposta alternativa para a dependência nacional em torno das leis de incentivo, a Lei Rouanet.

A atual querela, portanto, deve ser analisada a partir desse contexto, em que novos atores sociais aparecem no conjunto da esfera pública. Eu mesmo participei da 2ª conferência nacional de Cultura, em 2010, e pude ver a pluralidade de sujeitos e, conseqüentemente, de interesses. Essa teia inclui territorialidades que vão da tradição à pós-modernidade. Essas transformações institucionais no ministério foram acompanhadas por demandas de base territorial, que por sua vez, impactaram as gestões municipais e estaduais. Os Pontos de Cultura talvez sejam os melhores exemplos para essas territorialidades emergentes na produção de políticas públicas, em rede e baseada em outras hierarquias. Uma delas é a Cultura Digital[2].
Se neste cenário, um dos grandes desafios não resolvidos pelo Ministério foi à Lei Rouanet (somente em 2010 é sistematizada uma proposta alternativa, o PROCULTURA), outro ponto tratado com muito receio pelo governo federal diz respeito à revisão dos Direitos Autorais. Repetindo chavões, o Brasil possui a 4ª pior Lei de Direito Autoral do mundo. Isto quer dizer que a atual Lei 9.610, de 1998, representa entraves ao compartilhamento da cultura e da educação. Falta, também, uma gestão mais transparente desses direitos e dos recursos arrecadados por entidades como o ECAD. O Direito Autoral expressa um conjunto de direitos que o criador de obra intelectual exerce suas criações. Este se divide em direitos dos autores (que diz respeito à pessoa física criadora de obra, de quem expressou a idéia e a pôs em um suporte material) e os Direitos conexos (referente à titularidade da obra). Sobre essas, incidem direitos morais e patrimoniais.
A grande questão é que, por detrás de um debate aparentemente ligado ao campo jurídico, estão interesses econômicos de um segmento que não pára de crescer mundo afora, movimento centenas de bilhões de dólares.  A Economia Criativa, apesar de seu discurso, ainda tem como base a acumulação capitalista e seus interesses e lobbies. Como afirma David Harvey[3], a cultura tornou-se um dos últimos monopólios que geram acumulação, através da apropriação da monopolística.
Noutra ponta, a cultura aparece cada vez mais territorializada pela política, onde a cultura aparece como um recurso para a melhoria sociopolítica de suas realidades. Ou seja, a política e cultura cada vez mais se transversalizam. Esses sujeitos que passaram a participar da produção de políticas públicas de cultura nos últimos 08 anos, em sua maioria, comungam do pressuposto da democracia cultural[4].
É essa, ao que me parece, a disputa instaurada na arena cultural, e que pode ser percebida nessa querela em que a nova ministra, apenas cinco meses após sua posse, se encontra. Ao verificar o perfil dos atuais gestores e sua atuação no campo cultural, verifica-se uma aproximação com segmentos e lobbies dessa chamada Economia Criativa, cujos interesses não são tão criativos assim, com o perdão do trocadilho. Se Gil foi o ministro tropicália, Jucá foi o ministro que buscou sua legitimidade na multiplicidade democrática de vozes que ganham sonoridade nos últimos anos. Ana, por sua vez, alia-se mais aos interesses dos produtores do Eixo Rio-São Paulo e sua noção mercantilizada de cultura.



[2] Os pesquisadores e ativistas Bianca Santana e Sergio Amadeu da Silveira sistematizaram, apresentado durante o "Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: práticas e perspectivas", em 2005,  que conceitua cultura digital: “Reunindo ciência e cultura, antes separadas pela dinâmica das sociedades industriais, centrada na digitalização crescente de toda a produção simbólica da humanidade, forjada na elação ambivalente entre o espaço e o ciberespaço, na alta velocidade das redes informacionais, no ideal de interatividade e de liberdade recombinante, nas práticas de simulação, na obra inacabada e em inteligências coletivas, a cultura digital é uma realidade de uma mudança de era”.
[3] HARVEY, David. A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo, Editora Annablume, 2005.
[4] Para ver BOTELHO, Isaura. Políticas culturais: discutindo pressupostos. Teorias e políticas da cultura: visões multidisciplinares / organização Gisele Marchiori Nussbaumer. —Salvador : edufba, 2007, p. 171-180.

terça-feira, 8 de março de 2011

Novo debate sobre a revisão dos direitos autorais

Depois de seis anos de debate, eis que a Ministra da Cultura Anna de Hollanda anuncia que, outra vez, vai buscar Arenas para aprimorar o projeto de Lei da Revisão dos Direitos Autorais, querendo o consenso.

Acho difícil o consenso nessa área. Tem vezes que o poder público, que é o árbitro desse debate, quando se encontra diante da falta de acordo, tem que bater o martelo. E pra isso, precisa ter um olhar político sobre a questão. Um olhar político que assuma o futuro que se quer. Quando penso nesse assunto, me vem palavras como democratização, ética e sustentabilidade. Não dá para privatizar a cultura. Os direitos autorais ou a propriedade intelectual, muito recentes na história, são experimentos que visam aprofundar a propriedade nas esferas cultura e arte.
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Mas, pra falar a verdade, a discussão sobre Direitos Autorais nem esquentou ainda. Mexer com o termo “propriedade” é algo fatal. Dá guerra. A tal da Economia Criativa, parte dela, está ligada ao conceito de propriedade intelectual. Nunca é demais lembrar que Hollywood, Microsoft, CNN representam a maior parte da balança comercial dos EUA, por exemplo. No Brasil, pelas condições desiguais de entrada no capitalismo, as corporações estrangeiras, especialmente no cinema, na música e na literatura, dominam. As cadeias produtivas de setores da economia criativa tupiniquim ainda são incompletas.
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Sou favorável a mudança nesse padrão, que paga muito bem a corporações e quase nada ao artista que não seja “star”. Esse indivíduo vai tentar a sorte junto a editais e leis de incentivo. Se for Leis Federais ou apoio junto a Estatais, o artista vai penar e ter pouco sucesso. Muita gente tenta nos municipais e estaduais, mais ainda são poucos os editais e os recursos nessas esferas. Outros artistas, por sua vez, tentam apoios com a iniciativa privada. Aqui onde eu vivo isso é raro. Outros procuram o mercado. Este entra no processo quando vê valores de rentabilidade em alguma obra. Tem alguns que se beneficiam com estúdios caseiros, graças ao barateamento da tecnologia. A vida de artista e produtor cultural na base da pirâmide não é fácil.

O David Harvey traz um conceito bem bacana pra pensar o contexto em que ocorre o debate sobre os “direitos autorais” ou a “propriedade intelectual”. É o termo “apropriação da renda monopolística”. Arte e cultura tornaram-se um dos últimos refúgios para a obtenção de monopólios. Arte e cultura estão mais do que nunca imbricados com a economia e a política, nos dias de hoje, impregnando essas áreas com o simbólico. Eis ai, um “Duelo de Titãs” (tenho que pagar royaltes por este uso?) que se aproxima: corporações versus direitos culturais das pessoas. 

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Direito autoral

De 27 a 29.09, UFSC realizará II Congresso de Direito de Autor e Interesse Público

O congresso é organizado pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, pelo Programa de Pós-Graduação em Direito CPGD/UFSC, por intermédio do Grupo de Estudos de Direito de Autor e Informação GEDAI/UFSC, que tem por objetivo estudar todos os aspectos relacionados ao desenvolvimento dos Direitos Autorais na Sociedade da Informação. O evento tem o apoio do Ministério da Cultura.

O evento representa um importante passo para a retomada da presença do Estado na formulação de políticas públicas para um tema cada vez mais contemporâneo e estratégico, num contexto de ambiente digital e convergência tecnológica, e vai ao encontro de outras iniciativas, visando estimular uma abordagem crítica e profunda acerca do Direito da Propriedade Intelectual, em especial, os interesses públicos e econômicos envoltos na questão do Direito de Autor e o interesse público.

Saiba mais sobre o assunto: http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral

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